sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A poesia transcendental, transcarnavalesca e original de Everton Cidade

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Acaba de ser publicado pela editora Folheando, do Pará, o novo livro do poeta e músico Everton Cidade. A coletânea de poemas intitula-se Cohab Goya e encontra-se atualmente em pré-venda.

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O título faz alusão à Cohab-Feitoria, bairro de São Leopoldo onde o autor viveu (e este que vos escreve) maior parte da sua vida. A periferia, porém, não é meramente um adereço, ela está impregnada na linguagem, na verve. Em forma às vezes cifrada, às vezes escancarada, o vocalista da banda Santo Suzuki, destrincha o cotidiano de um poeta maldito.

Sua escrita tem certa rispidez e crueza. Para os desavisados, ler a poesia marginal, lo-fi do Cidade é como pisar em espinhos, descalço. O sangramento é quase inevitável. Em compensação os seus leitores certamente gostarão de sentir essa dor.

A poesia transcendental, transcarnavalesca e original do poeta leopoldense vai além, e é uma punhalada certeira no coração da literatura banal, acostumada a lirismos fáceis, a metáfora arcaicas. É um soco na boca do estômago dos puritanos adeptos de versinhos de amor. Mais: Cohab Goya é um chega para lá na linha de montagem comercial literária, acostumada a produzir livros engessados que visam o lucro acima da arte.

Se a poesia fosse uma igreja, Bukowski, Whitman, Ginsberg, Blake, Leminski seriam seus profetas. Cidade, por sua vez, certamente é candidato a beato. Basta que não caia na tentação do sentimentalismo e um dia poderá ser santo.

Para quem quiser saber mais sobre a sua poesia, ele produziu em 2020 uma série de vídeos chamado PALIATIVOS PSÍQUICOS. São 10 videopoesias produzidas por ele (poesia e voz) e Ícaro Estivalet (som e imagem) com auxílio do edital emergencial para cultura do município de São Leopoldo/RS.

Os vídeos com os poemas podem ser encontrados no Canal Freak Sound: https://www.youtube.com/channel/UC2NctHO0b1X976Tlh2F5EfA

Abaixo 3 poemas de Everton Cidade extraídos do livro Cohab Goya:

2/.

Uma diáspora

Uma

Em pobreza

Que nos adora

Em fraqueza

Nos acavalou

Com a gentileza

De uma espora

Nessas casas feitas à faca

Nesses prédios onde cama é maca

Fomos realeza por uma hora

Mas a tragédia

Nos namora.


...

 

14/.

Proezas

Pra catar

Beleza alheia

Ouvindo rock ruim

Achando bom

Era o que tínhamos

E com uma cachacinha

Era bom assim

Fins de semana

De santa ceia

Pra maldizer

Em amor quem nos chateia

...

 

1/.

Cohab, que tão pouco

Se sabe os segredos

Fui serpente desde cedo

Fui o louco, a mãe do medo

O menino afiando os dedos

Roubando carros

Com dor de dente

Trampando

Onde meu pai era gerente

Filho de loba mamando

Tetas das gentes

Que a tristeza segue

Bancando

Como cabelos

Presos num pente.

 

Sobre

Everton Luiz Cidade é músico e escritor, natural de São Leopoldo/RS. Publicou os livros Santo Pó/p (MAKBO Editora), QuiÓ (oVo e GoDie), Bonde Transmutóide (Vibe Tronxa Comix) e ApareCida (Meu Santo Vendedor). Escreve nos blogs das rádios Armazém e Rockpedia e nos jornais No Palco e Seguinte.

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