PENSANDO KEROUAC

Por Everton Cidade 

O primeiro livro que li de Kerouac, claro, foi "On the Road" nos anos 1980. E os sonhos plantados no meu cérebro de vila fizeram com que eu avançasse em muitos aspectos da minha personalidade e caráter.

Reli algumas vezes o livro. O amei e o detestei várias vezes. O relia a cada dez anos para ver o quanto eu tinha mudado. Agora, aos 50 anos, não tenho a mínima paciência. Não refuto a obra. Muito me inspirou na escrita automática e na benevolência humana.

Porém, apesar de serem artífices da contracultura, os escritores beat eram americanos e, como tal, agem de forma colonialista em muitas de suas aventuras. Paternalistas que vêem com olhos do exotismo as outras culturas. Mesmo Ginsberg derrapa nisso. Menos. Bem menos. Mas o faz. Kerouac o faz muito. Naturalmente.

Em sua viagem ao México com Neal Cassidy, isso fica gritante. São dois bobões americanos deslumbrados com os mexicanos. Deslumbrados com o poder do dólar contra o peso. Acham que estão sendo adorados. Estão sendo enrolados o tempo todo, os tolos. Isso me faz vibrar.

Na minha primeira leitura de "On the Road", meus heróis eram os amigos e não "Los amigos". Kerouac, com suas visões budistas de estrada e catolicismo culposo, muitas vezes trata com desdém personagens que não são da sua etnia. Mardou em "Subterrâneos" é um exemplo. Sua paixão por ela parece mais pela conquista dessa pessoa fora dos padrões sociais da época do que pelas qualidades da boemia inteligente e com problemas psicológicos sérios que ele idolatra.

Ele é o chefão que tem esse ser exótico com ele. Mesmo em "Tristessa", onde narra seu amor por uma traficante/viciada mexicana, ele é o americano que infantiliza o povo latino das ruas quentes com suas visões católicas descoladas do catolicismo do povo local.

Acho "Tristessa" lindo. Meu Kerouac favorito. Mas a beleza do texto automático mostra muito disso. Não nego a influência que Kerouac teve sobre minha escrita. Nem sobre mim. Mas analisar suas obras como brasileiro latino na América do Sul traz essas questões para minha percepção.

E a tristeza que destruiu com álcool o homem Kerouac sempre me entristece. Como um presságio.

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Sou escritor, poeta, blogueiro e desenvolvedor de aplicativos móveis.